CLÍNICA CIRÚRGICA: Assepsia e Antissepsia

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ESPECIALIZAÇÃO/PARTE: CLÍNICA CIRÚRGICA / TÉCNICAS DE ESTERILIZAÇÃO – PARTE 1
TEMA: ASSEPSIA E ANTISSEPSIA
AUTOR: REVISTA DE MEDICINA (Ribeirão Preto).

O hospital deve ser considerado insalubre por vocação, pois concentra hospedeiros mais suscetíveis e microorganismos mais resistentes. Os micro-organismos contaminam artigos hospitalares, colonizam pacientes graves e podem provocar infecções mais difíceis de serem tratadas. O risco de contraí-las depende, no entanto, do número e da virulência dos
microorganismos presentes e, acima de tudo, da resistência antiinfecciosa local, sistêmica e imunológica do paciente e da consciência do pessoal médicos e paramédicos que atuam no estabelecimento.
O ato de lavar as mãos, antes e após examinar pacientes, ainda não é um hábito corrente em nossos
dias, século XXI, apesar da sua importância já ter sido demonstrada em 1847/8 por Semmelweis em Viena.
Na França, Saldmann demonstrou recentemente que 73% das pessoas saem do banheiro com as mãos contaminadas (90% por Escherichia coli) e que, após duas horas 77% exibem o mesmo germe na boca!
Cerca de 50% das pessoas saem do banheiro sem lavar as mãos, quando sozinhas, entretanto, se houver outra pessoa no banheiro só 9 % saem sem lavar as mãos, demonstrando que muitos conhecem os bons hábitos higiênicos, mas, não os cumprem!

DEFINIÇÕES
Assepsia: é o conjunto de medidas que utilizamos para impedir a penetração de microorganismos num ambiente que logicamente não os tem, logo um ambiente asséptico é aquele que está livre de infecção.
Antissepsia: é o conjunto de medidas propostas para inibir o crescimento de microorganismos ou removê-los de um determinado ambiente, podendo ou não destruí-los e para tal fim utilizamos antissépticos ou desinfetantes.
Degermação: Vem do inglês degermation, ou desinquimação, e significa a diminuição do número de
microorganismos patogênicos ou não, após a escovação da pele com água e sabão.
Fumigação: é a dispersão sob forma de partículas, de agentes desinfectantes como gases, líquidos ou sólidos.

Desinfecção: é o processo pelo qual se destroem particularmente os germes patogênicos e/ou
se inativa sua toxina ou se inibe o seu desenvolvimento. Os esporos não são necessariamente destruídos.
Esterilização: é processo de destruição de todas as formas de vida microbiana (bactérias nas formas vegetativas e esporuladas, fungos e vírus) mediante a aplicação de agentes físicos e ou químicos, Toda
esterilização deve ser precedida de lavagem e
enxaguadura do artigo para remoção de detritos.
Esterilizantes: são meios físicos (calor, filtração, radiações, etc) capazes de matar os esporos e a forma vegetativa, isto é, destruir todas as formas microscópicas de vida. Esterilização: o conceito de esterilização é absoluto. O material é esterilizado ou é contaminado, não existe meio termo.
Germicidas: são meios químicos utilizados para destruir todas as formas microscópicas de vida e são designados pelos sufixos “cida” ou “lise”, como por exemplo, bactericida, fungicida, virucida, bacteriólise etc.

Na rotina, os termos antissépticos, desinfetantes e germicidas são empregados como sinônimos, fazendo que não haja diferenças absolutas entre desinfetantes e antissépticos. Entretanto, caracterizamos como antisséptico quando a empregamos em tecidos vivo e desinfetante quando a utilizamos em objetos inanimados.
Sanitização, neologismo do inglês sanitization, em que emprega sanitizer, tipo particular de desinfetante que reduz o número de bactérias contaminantes a níveis julgados seguros para as exigências de saúde pública.

ANTISSEPSIA
A descontaminação de tecidos vivos depende da coordenação de dois processos: degermação e antissepsia.

Degermação
É a remoção de detritos e impurezas depositados sobre a pele. Sabões e detergentes sintéticos, gra- ças a sua propriedade de umidificação, penetração, emulsificação e dispersão, removem mecanicamente a maior parte da flora microbiana existente nas camadas superficiais da pele, também chamada flora transitória, mas não conseguem remover aquela que coloniza as camadas mais profundas ou flora residente.

Antissepsia
É a destruição de micro-organismos existentes nas camadas superficiais ou profundas da pele, mediante a aplicação de um agente germicida de baixa causticidade, hipoalergenico e passível de ser aplicado em tecido vivo.
Os detergentes sintéticos não-iônicos praticamente são destituídos de ação germicida. Sabões e detergentes sintéticos aniônicos exercem ação bactericida contra microorganismos muito frágeis como o Pneumococo, porém, são inativos para Stafilococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa e outras bactérias Gram negativas. Consequentemente,
sabões e detergentes sintéticos (não iônicos e aniônicos) devem ser classificados como degermantes, e não como antissépticos.

ANTISSÉPTICOS
Um antisséptico adequado deve exercer a atividade gemicida sobre a flora cutâneo-mucosa em presença de sangue, soro, muco ou pus, sem irritar a pele ou as mucosas. Muitos testes in vitro foram propostos para avaliar a ação de antissepticos, mas a avaliação definitiva desses germicidas só pode feita mediante testes in vivo. Os agentes que melhor satisfazem as exigências para aplicação em tecidos vivos são os iodos, a cloro-hexidina, o álcool e o hexaclorofeno.

Para a desinfecção das mãos temos

• Soluções antissépticas com detergentes (degermantes) e se destinam à degermação da pele, removendo detritos e impurezas e realizando anti-sepsia parcial. Como exemplos citam:
– Solução detergente de PVPI a 10% (1% de iodo ativo)
– Solução detergente de clorhexidina a 4 %, com 4% de álcool etílico.

• Solução alcoólica para anti-sepsia das mãos:
– Solução de álcool iodado a 0,5 ou 1 % (álcool etílico a 70%, com ou sem 2 % de glicerina)
– Álcool etílico a 70%, com ou sem 2% de glicerina. 4.2- Compostos de iodo
O iodo é um halogênio pouco solúvel em água, porém facilmente solúvel em álcool e em soluções aquosas de iodeto de potássio.

Iodóforos

Shelanski & Shelanski, em 1953, descobriram que o iodo poderia ser dissolvido em polivinilpirrolidona
(PVP), um polímero muito usado para detoxicar e prolongar a atividade farmacológica de medicamentos e também como expansor plasmático. Além de conservar inalteradas as propriedades germicidas do iodo, apresenta as seguintes vantagens sobre as soluções alcoólicas e aquosas desse agente, pois não queima, não mancha tecidos, raramente provoca reações alérgicas, não interfere no metabolismo e mantém ação germicida residual. São chamados de iodóforos e liberam o iodo lentamente, permitindo uma estabilidade maior para a solução.
Os compostos de iodo têm ação residual, entretanto sua atividade é diminuída em virtude da presença de substâncias alcalinas em matérias orgânicas.
A hipersensibilidade ao iodo contido no PVPI tem sido descrita na relação de 2: 5000. E com os
outros compostos do tipo álcool iodado, essa relação é maior.
O iodóforo mais usado para a anti-sepsia das mãos é a solução degermante, de PVPI a 10% (1%de iodo ativo), em solução etérica, que é bactericida, tuberculicida, fungicida, virucida e tricomonicida. Essa solução tem a seu favor, o fato de não ser irritante, ser facilmente removível pela água e reagir com metais.
Para as feridas abertas ou mucosas, (sondagem vesical), usamos o complexo dissolvido em solu- ção aquosa.
Para a anti-sepsia da pele integra antes do ato cirúrgico, usamos o complexo dissolvido em solução alcóolica.
Em resumo: Os iodóforos têm ação bactericida, fungicida, virucida e ação residual.

Cloro-hexedina ou clorhexedina
A cloro-hexedina (l, 6 di 4-clorofenil-diguanidohexano) é um germicida do grupo das biguanidas, apresenta maior efetividade com um pH de 5 a 8, e age melhor contra bactérias Gram-positivas do que Gram-negativas e fungos. Tem ação imediata e tem efeito residual. Apresenta baixo potencial de toxicidade e de fotossensibilidade ao contato, sendo pouco absorvida pela pele integra.
Para casos de alergia ao iodo, pode-se fazer a degermação prévia com solução detergente de clorohexidina a 4%.
As formulações para uso satisfatório são: solução de gluconato de clorhexedina a 0,5%, em álcool a 70% e solução detergente não ionica de clorhexedina a 4%, contendo 4% de álcool isopropilico ou álcool etílico para evitar a contaminação com Proteus e Pseudomonas.
Soluções aquosas de clorhexedina em concentrações inferiores a 4% de álcool, com ou sem cetrimida, são mais facilmente contamináveis sendo considerados inadequados para uso hospitalar.
Em resumo: A ação da clorohexedina é germicida, melhor contra Gram-positivo e tem ação
residual.

Álcool
Os álcoois etílico e isopropílico, em concentrações de 70 a 92 % em peso (80 a 95% em volume a 25oC), exercem ação germicida quase imediata, porém sem nenhuma ação residual e ressecam a pele em repetidas aplicações, o que pode ser evitado adicionando se glicerina a 2%. O álcool etílico é bactericida, age coagulando a proteína das bactérias, fungicida e virucida para alguns vírus, razão pela qual é usado na composição de outros antissépticos. A ação bactericida dos álcoois primários está relacionada como seu peso molecular, e pode ser aumentada através da lavagem das mãos com água e sabão.

Em resumo: O álcool etílico é bactericida, fungicida e virucida seletivo, sem ação residual.

Sabões e detergentes
Sabões são sais que se formam pela reação de ácidos graxos, obtidos de gorduras vegetais e animais, com metais ou radicais básicos (sódio, potássio, amônia etc), são detergentes ou surfactantes aniônicos porque agem através de moléculas de carga negativa  Existem vários tipos e apresentação de sabão: em barra, pó, líquido e escamas.

O cuidado maior que se deve ter no manuseio do sabão é evitar seu contato com a mucosa ocular, contato prolongado com a pele, que pode produzir irritação local. Em resumo: Os sabões têm ação detergente ou degermante.

Compostos de prata
Sais de prata, solúveis ou coloidais, já foram utilizados na anti-sepsia das mucosas, exercendo sua ação através da precipitação do ion Ag.
O nitrato de prata, em aplicação tópica, é bactericida para a maioria dos micróbios na concentração de 1/1000 e se na concentração de 1/10.000 é bacteriostática.
A instilação de duas gotas de uma solução a 1% de nitrato de prata no saco conjuntival dos recémnascidos evita a oftalmia neonatal.
Em resumo: Os sais de prata são bacteriostáticos.

Desinfetantes oxidantes
Esses compostos se caracterizam pela produção de oxigênio nascente, que é germicida.
A água oxigenada ou peróxido de hidrogênio é o protótipo dos peróxidos, entre os quais ainda se contam os peróxidos de sódio, zinco e benzila. A água oxigenada se decompõe rapidamente, e libera oxigênio quando entra em contato com a catalase, enzima encontrada no sangue e maioria dos tecidos. Este efeito pode ser reduzido na presença de matéria orgânica. Útil na remoção de material infectado através da ação mecânica do oxigênio liberado, limpando a ferida muitas vezes melhor que solução fisiológica ou outros desinfetantes. Não deve ser aplicada em cavidades fechadas o abscessos de onde o oxigênio não possa liberar-se

O permanganato de potássio é um potente oxidante que se decompõe quando em contato com matéria orgânica. Já teve grande uso no passado, mas hoje está ultrapassado como antisséptico. Em resumo: Os desinfetantes oxidantes têm
ação germicida.

Derivados fenólicos
Os fenóis e derivados são conhecidos de longa data como venenos protoplasmáticos gerais, precipitando e desnaturando as proteínas. O fenol, em soluções diluídas, age como antisséptico e desinfetante, com espectro anti-bacteriano que varia com a espécie do micróbio, não sendo esporocida.
É usado principalmente para desinfetar instrumentos e para cauterizar ulceras e áreas infectadas da pele. O fenol, na concentração de 1/500 a 1/800, é bacteriostático, e nas concentrações de 1/50 a 1/100 torna-se bactericida.
Os cresóis, derivados metílicos do fenol, são

menos irritantes e menos tóxicos que o fenol e parecem possuir ação anti-séptica mais poderosa.
Os derivados halogenados dos fenois são também antimicrobianos mais potentes que o fenol, como
o hexilresorcinol, por exemplo.
Os derivados fenólicos são usados principalmente para desinfetar objetos porque são cáusticos e tóxicos para os tecidos vivos. O fenol e os cresóis não devem ser usados para desinfetar artigos de borracha, de plástico, ou tecidos que possam entrar em contato com a pele, de que podem resultar queimaduras. Atualmente não mais se usa fenol como antisséptico ou desinfetante. Em resumo: O derivado fenólico tem ação bactericida e não esporocida, utilizados em instrumental.

Aldeídos
O aldeído fórmico, também chamado formaldeido, formol, formalina ou oximetileno, resulta da oxidação parcial do álcool metílico. Sofre ação da luz, polimerizando e dando origem a paraformaldeído. O formol é um líquido límpido, incolor, picante, sabor caustico. Seus vapores são irritantes para as mucosas (nariz, faringe, olhos etc.), que podem ser combatidos usando-se amoníaco diluído. É desinfetante potente, com poder de penetração relativamente alto e baixa toxicidade, seu poder de potente redutor, reage com substâncias orgânicas e precipita as proteínas, germicida por excelência, age inclusive sobre os esporos. Desnatura as proteínas, reagindo com os grupos aminos livres, e isso faz a transformação de toxina em toxóide ou antoxina, conservando assim o poder de antigenicidade.
O aldeído fórmico, com sabão, forma o lisol. O
lisoformio tem na sua composição além de outros ingredientes , o aldeído fórmico e sabão em solução a 1% a 10%.
O dialdeído fórmico ou aldeído glutárico (Cidex) é usado em soluções aquosas a 2%, previamente alcalinizadas, é menos irritante que o formaldeido, tem menor índice de coagulação de proteínas, não é corrosivo, não altera artigos de borracha, de plástico, de metal ou os mais delicados instrumentos de corte e instrumentos ópticos, não dissolve o cimento das lentes dos equipamentos ópticos em exposições por períodos curtos. É nocivo à pele, mucosa (olhos) e alimentos. Em resumo: Os aldeídos têm ação bactericida e esporocida.

Derivados furânicos
A nitrofurazona (furacin) tem amplo espectro antibacteriano, interferindo no sistema enzimático dos microorganismos pela inibição do metabolismo dos hidratos de carbono, sendo usada apenas como tópico no tratamento de certas infecções assestadas na pele, feridas infectadas ou queimaduras, o uso continuo pode provocar intolerância e sensibilização. Não afeta a cicatrização, a fagocitose e a atividade celular e a sua eficácia persiste na presença de sangue, pus ou exsudato, diminui o mau cheiro e quantidade de secreção da ferida. Em resumo: Os derivados furanicos têm ação
bactericida.

Créditos/ Artigo retirado:

Assepsia e antissepsia técnicas de esterilização Medicina (Ribeirão Preto) 2008
Moriya T, Módena JLP – http://www.fmrp.usp.br/revista (veja o artigo original)

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